As ciências estão hoje imersas em um processo de reconstrução conceitual. No que toca à matéria, os atomistas gregos nos legaram um projeto: tentar conciliar a permanência e a mudança. Daí a ideia de combinações temporárias de elementos
permanentes: antigamente os átomos e moléculas, hoje as partículas elementares. Agora bem, um das descobertas fundamentais da ciência nos últimos anos é justamente a instabilidade das partículas elementares. Se as experiências atualmente em marcha são confirmadas estaremos obrigados a concluir que o projeto atomista, por mais
fecundo que tenha sido, chega hoje a seus limites.
Dantes buscava-se, também, simetrias no universo: o caso mais impressionante é o da mecânica quântica relativa às partículas e antipartículas. Como estas últimas são um produto de laboratório, nos ver nos levados a concluir que esta simetria não é necessária em nosso meio cosmológico. Vivemos portanto em um universo não simétrico, estranho à harmonia geométrica ideal da física clássica.
Reconstruções fundamentais também nos esperam no que se refere ao espaço e ao tempo. Este já não é mais o parâmetro externo da dinâmica clássica, utilizado mal para balizar uma trajetória. O tempo apresenta agora características diferentes, mais unidas à irreversibilidade e, em consequência, à história em todos os níveis,
desde as partículas até a cosmologia. Na época em que a mecânica clássica imperava de maneira indiscutida podia falar de um nível fundamental. Hoje a física está mais aberta e estamos obrigados a considerar uma pluralidade de níveis interconectados, sem que nenhum possa ser considerado prioritário ou fundamental.
- Que pensa voce então da hipótese de Einstein, segundo a qual o campo é a única realidade?
A cada vez é mais difícil aceitar que um só conceito possa relegar ou conter as diferentes facetas do universo. Ainda que se quiséssemos citar um conceito que traspasse as separações clássicas da ciência eu proporia o redescobrir do tempo. Diz-se frequentemente, e com razão, que nosso século XX foi marcado na física por duas revoluções: a da mecânica quântica e a da relatividade. Em um princípio estas teorias foram formuladas como simples correções da mecânica clássica. Mas atualmente a mecânica quântica transformou-se na teoria que dá as leis de transformação das partículas elementares. Quanto à relatividade, esta constitui o quadro da histórica térmica do universo. Em outras palavras essas duas matérias se
“temporalizam”.
- De que maneira a visão determinista da ciência clássica pode enfrentar o impacto da casualidade?
Talvez possamos primeiro evocar o diabo de Laplace. Voce sabe que bastava fornecer as informações necessárias sobre um sistema dinâmico para que este fosse capaz de calcular qualquer estado passado ou futuro desse sistema. No universo descrito pelas ciências modernas a casualidade tem um papel a cada vez maior. A visão probabilística surgiu primeiro nas tentativas de explicação microscópicas da entropía, o que foi feito pela importante obra de Boltzman. Depois veio a
mecânica quântica; apesar das inumeráveis tentativas para retornar à ortodoxia determinista as estatísticas seguem desempenhando ali um papel irredutível.
Em nossa escala de seres vivos, de compostos macroscópicos, parecia que a lei dos grandes números podia restabelecer o esquema determinista. Mas é que surge o probalístico, o estatístico, com muita força também neste nível: este é um dos aspectos da descoberta do auto-estruturalísmodo dos sistemas macroscópicos
longe do equilíbrio. O que os vincula ao aleatório depende da variedade de formas que, de uma experiência a outra, esses mecanismos de estruturalizar possam desenvolver apesar dos mais rigorosos controles das condições de experimentação. Aqui já não se trata de fenômenos calculáveis por meio de leis gerais: cercada pelo estado de equilíbrio as leis da natureza são universais; longe do estado de equilíbrio as leis são especificas. Essas instabilidades exigem um fluxo de energia, dissipam energia. Daí o nome de estruturas dissipativas” que dei a essas
instabilidades. - Desde diversas perspectivas questiona-se fortemente o sentido do
aleatorio e da casualidade. Deve pensar-se que este é inerente à natureza
ou a nosso modo de descrição?
Esta questão, desde que a mecânica quântica foi formulada, tem suscitado controvérsias exacerbadas. Sem dúvida é possível que um observador situado fora da natureza possa ver um mundo diferente e faça do uma descrição diferente. Mas trata-se em realidade de um pseudo-problema, pois acho que a ciência interessa-se pelos modelos da realidade que nós elaboramos imersos neste mundo. As descobertas deste século – desde a mecânica quântica às instabilidades hidrodinâmicas – mostram que os esquemas deterministas nos são inacessíveis. A investigação atual orienta-se para a incorporação a cada vez maior de elementos aleatórios. Isto se
verifica tanto na cosmologia relativista de Hawking como nos estudos dos “insetos sociais”, onde autores tão competentes como P. P. Grassé ou Remy Chauvin fazem qüestão do papel do azaroso na organização social.
- Se seu “ouvir poética” da natureza reintegra ao homem no mundo que ele observa, em que esta visão responde às afirmações de Jacques Monod segundo quem a “antiga aliança está rompida, o homem sabe hoje que está só na imensidão indiferente do universo?
Monod teve uma consciência notável das propriedades da vida que, a primeira vista, pareciam opor o vivo ao não-vivo. Segundo o a vida está à margem da física: é uma flutuação, é o resultado de uma casualidade milagroso que se perpétua. Mas no universo estruturado que acabo de mencionar a vida é menos milagrosa. Esta busca raízes profundas em propriedades da matéria que só foram postas em evidência recentemente. É interessante notar que, longe do equilíbrio, a matéria adquire propriedades novas, o qual é ilustrado pelo exemplo dos relógios químicos: uma sensibilidade intensa a variações mínimas, comunicação a distância entre moléculas, efeitos de cor dos caminhos percorridos. Desde o princípio do século já sabíamos que a matéria apresenta propriedades ondulatórias em nível microscópico: é a dualidade ondaparticula da mecânica quântica; pois não é que a matéria, em seu nível macroscópico, tal como a encontramos nas reações químicas,
pode adquirir esse caráter ondulatório? É neste sentido que a famosa
oposição entre os defensores da interpretação reducionista e uma
holista está superada.
- Se o conhecimento científico depende do tipo de cultura, que está influenciada pela ideologia especifica de uma sociedade, que tipo de dialética pode se instaurar entre ciência e sociedade? O redescobrimento do tempo é talvez um elemento de unidade entre ciência, cultura e sociedade. Antigamente a ciência falava-nos de leis eternas. Hoje fala-nos de história do universo ou da matéria - daí
sua aproximação evidente com as ciências humanas. Além disso a aproximação se produz em um momento em que a explosão demográfica está transformando as relações entre o homem com os outros homens e a natureza. Dentro desta perspectiva a relação entre ciência, natureza e sociedade toma novas formas. Ou, tomando a ideia de Serge
Moscovici, a ciência torna-se menos esotérica, menos ocupada com peças de museu. Encontra-se mais unida ao destino do homem,integrando-se agora em todas as expressões da inventividade humana.
- Justamente sua concepção das estruturas dissipativa surpreende pela
riqueza da extrapolação a múltiplos campos. Seria esse o novo paradigma delineado no famoso coloquio de Stanford?
Não gosto muito da palavra paradigma. É verdade que na física clássica tinha uma espécie de paradigma, um esquema único e undamental: o da dinâmica, ao qual todas as outras áreas deviam ser reduzidas. Enquanto hoje o mundo da física tem ao mesmo tempo modelos como o do pêndulo, com sua lei reversiva, e também reações químicas caracterizadas pela irreversibilidade da seta do tempo. Não acho que seja possível, nem deseable, reunir todas as possibilidades em um só e único modelo. Em contrapartida penso que é preciso saber superar as contradições para poder passar de um modo de descrição a outro. Em definitiva:
não vivemos talvez em um só universo?
- O fenômeno da entropia não seria o meio para isso?
Em verdade talvez seria bom recordar que o segundo princípio da
termodinâmica, que constitui o núcleo desta teoria, este situado em um
ponto de entrecruzamento. É claro que o resista as condições iniciais, a seta do tempo, que implica a quebra da simetria e sobretudo a noção de espontaneidade. Os fenômenos de crescimento de entropia delimitam nosso poder. Esta impossibilidade de escapar da entropia é o conceito finque pelo qual o segundo princípio da termodinâmica se relaciona às duas grandes revoluções contemporâneas: a relatividade e a mecânica quântica.
Foi graças às impossibilidades inerentes dessas duas teorias que se percebeu que se tratava de grandes novidades: no caso da primeira,a impossibilidade de comunicar com a velocidade da luz e no da segunda a impossibilidade de medir ao mesmo tempo o movimento e a posição de um eléctron. Essa evolução convergente situou-nos em dois terrenos com os limites de nosso poder de manipulação: devolve-nos a um espaço
de atividade no seio da natureza e retira-nos da posição de observador exterior ao que nos relegava a física clássica.
Entrevista realizada por Christian Delacampagne
“Recherche” (1985)
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